Nós urbanos, nós urbanos

Nós, urbanos, que há mais ou menos um século decidimos majoritariamente viver aglomerados nas cidades e, cada vez mais, nas grandes cidades enfrentamos muitos desafios diante de desastres naturais, explosão demográfica, cidades cada vez mais dispersas, violência e problemas de mobilidade apesar do número de automóveis nas ruas.

Nós, urbanos, assistimos cidades como Goiânia, Brasília, Fortaleza e Natal, que há pouco tempo não experimentavam os problemas decorrentes do crescimento acelerado e descontrolado, passarem a conviver com congestionamentos, enchentes, doenças decorrentes das péssimas condições de saneamento, entre outros males.

Nós, urbanos, esperamos mais dos que governam nossas cidades. Embora saibamos que, se depender da postura da maioria dos políticos, tudo tende a piorar. É lamentável ver e ouvir uma autoridade pública responsabilizar pobres e favelados pela sua própria desgraça, como no caso das chuvas no Rio de Janeiro. E o que dizer de um secretário de transportes – que de transporte não entende nada – que culpa um pobre motorneiro pela tragédia em um bonde mal conservado? São as mesmas autoridades que desvirtuam o discurso em prol da imagem da cidade maravilhosa, aproveitando, inclusive, para defender a construção dos muros em torno das favelas entre outras ações discriminatórias.

Nós, urbanos, temos visto qualquer noção de planejamento ser abandonada ao longo dos anos. Ao invés do planejamento que considera a cidade em sua complexidade e seu tamanho, experimentam-se intervenções pontuais que negligenciam completamente – no caso das grandes cidades – o espaço urbano em sua escala metropolitana. Os governos locais abdicam-se de qualquer noção de bem-estar coletivo, privilegiam cada vez mais a visão da cidade como uma planta para negócios e se orientam pela lógica da competitividade visando melhorar as vantagens locacionais e as capacidades produtivas das cidades. Com isso, por trás de indicadores globais que indicam a melhoria nas condições de vida, a realidade é que boa parte da população urbana ainda não se encontra inserida numa estrutura de oportunidades que lhe garanta melhores empregos e salários. E ainda mais: essa mesma população é vítima da ação do Estado, como no caso das remoções forçadas de comunidades inteiras para as obras preparatórias para a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.

Nós, urbanos, porém, não podemos desistir da contínua luta por moradia adequada, saneamento básico e transporte público de qualidade, exigindo que o Estado seja o principal promotor do bem-estar urbano. Ao mesmo tempo, devemos persistir na ideia de que os governos locais devam cumprir também seu papel de planejador de cidades mais justas do ponto de vista ambiental e social, sobretudo.

As transformações urbanas são dinâmicas, a sociedade urbana é dinâmica. Estamos, portanto, diante de nós urbanos que precisam ser desatados reconsiderando que nossas cidades, cada uma com suas histórias, hoje demandam novas respostas da sociedade, das universidades e do Estado.

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