Nossa Mobilidade Urbana de cada dia – Dia 1

A culpa é da Prefeitura!

Moro a menos de 6,4 quilômetros do meu local de trabalho, na Cidade Universitária da Ilha do Fundão, onde funciona a UFRJ. Se fizesse o trajeto de carro, o tempo total não passaria de 10 minutos, isso com trânsito. É um horário de contra fluxo e esse tempo pode ser de 7 minutos, como já ocorreu uma vez quando precisei ir de táxi (a figura mostra o trajeto simulado pelo Google).

Dia 1

Acontece que não existe nenhuma modalidade de transporte público ligando diretamente meu bairro (São Cristóvão) à Cidade Universitária. Isso resulta no fato de que tenho pegar no mínimo dois ônibus até meu destino diário. Em tese não haveria problema e a princípio a demanda por essa linha desejo não justifica a necessidade de uma linha com essa configuração.

São dois ônibus. Sem tráfego carregado, o trajeto do primeiro dura em média 10 minutos e do segundo o mesmo tempo. O grande problema está, obviamente, no trânsito, afinal estamos falando do Rio de Janeiro, metrópole com o maior tempo médio de deslocamento no Brasil e classificada como o 3º pior trânsito do mundo em relatório da empresa TomTom. Em um trecho de menos de 100 metros já cheguei a levar 35 minutos. Em média, com tráfego mais pesado, esse trecho tem sido percorrido em 10 minutos. Assim, digamos que o tempo de deslocamento no meu primeiro ônibus – de São Cristóvão até a Av. Francisco Bicalho – é de 20 minutos, em média. O mais curioso é que se eu simulo esse mesmo deslocamento no Google Maps, ele diz que seria de 6 minutos à pé.

No segundo trecho – da Francisco Bicalho até a Ilha do Fundão – o tempo gasto de ônibus também está em torno de 10 min. Bom, se era pra levar 20 minutos no primeiro trecho e mais 10 minutos no segundo, o que faz com que o tempo total da minha viagem chega a até 1 hora, como aconteceu hoje? A resposta não está só no tráfego pesado do horário, mas no próprio fato de ter que tomar dois ônibus e, principalmente, no tempo de espera no ponto, principalmente do segundo ônibus da linha 485, da empresa City Rio, que faz a ligação Praça General Osório (em Ipanema) – Fundão (Cidade Universitária) e passa pela Av. Francisco Bicalho.

Os fiscais da empresa, que não têm culpa de nada, coitados, são os principais alvos da reclamação da dezena de usuários que esperam pacientemente mais de 20 minutos por um ônibus no ponto. Pior que, além da demora, quando passam, os ônibus chegam à parada completamente lotados (como nessa foto que tirei hoje por volta de 10:00 no ponto da Leopoldina). Esse cenário é recorrente, e as reclamações também.

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Esses fiscais, apesar das mãos atadas, tentam dar conta das reclamações. Primeiro com as palavras. Disseram que o problema do atraso era por causa do trânsito. Mas como explicar que ônibus de outras linhas, inclusive da mesma empresa, passam com razoável frequência e os da linha 485 não? Mostrando a planilha de controle das linhas, um deles me diz que o número de veículos permitidos na linha já chegou ao limite. Pela quantidade de ônibus que tinham passado no dia, me parece que ele tem razão. Eu concordo e ele diz, defendendo a empresa: a culpa é da prefeitura!

Como vivemos em uma cidade que é surreal (onde um trajeto de 10 minutos pode rapidamente se transformar em um de 1 hora), mas também solidária, os dois fiscais providenciaram uma solução bem carioca; ou algo que poderia ser definido como um registro empírico do termo cunhado há alguns anos pelo professor José Miguel Wisnik: uma gambiarra carioca.

Diante da reclamação dos usuários, do ponto e dos ônibus que passavam completamente lotados, um dos fiscais resolveu tomar uma atitude inusitada, mas não surpreendente. Parou e esvaziou um ônibus da linha 484, transferindo os passageiros para um ônibus da mesma linha que vinha logo em seguida. O motorista desse veículo alterou o letreiro do itinerário para 485. Assim, depois de 25 minutos de espera, entramos em um ônibus completamente vazio e seguimos felizes e satisfeitos para nosso destino final. Naquele momento, deu certo essa nova modalidade de “integração” no transporte – ou gambiarra como preferirem.

Falta Planejamento!

Além de insistir que a culpa é da prefeitura, um dos fiscais repetia incansavelmente: Falta Planejamento! Falta Planejamento. Mais uma vez ele tem razão.

O Jornal O Dia trouxe hoje uma notícia que expõem uma das principais causas dos problemas de transporte na região metropolitana do Rio de Janeiro: a completa falta de planejamento. A reportagem (disponível aqui: http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2015-04-14/nova-barca-da-ccr-esta-se-tornando-um-elefante-branco.html) mostra a falta de aproveitamento da barca adquirida recentemente pelo Governo do Estado.

De citada repedida vezes pelo governador, quando estava em campanha, como solução para a ligação entre Rio e o Leste Metropolitano (Niterói e São Gonçalo) a elefante branco. Essa é a realidade da barca Pão de Açúcar mostrada pela matéria do Jornal O Dia. Classificá-la como elefante branco, como faz o jornal, é o mínimo. O equipamento adquirido por milhões de reais apresenta sinais claros de subutilização – outras seis estão encomendadas ao custo de R$ 300 milhões. Como afirma a matéria: “Em um mês foram feitas 287 viagens (cerca de 14 por dia), com 174.723 passageiros. Isso dá, em média, 600 pessoas por viagem. Ou seja, se considerarmos as duas mil pessoas que ela pode transportar, a embarcação está funcionando com apenas 30% da sua capacidade”.
O grande problema da Pão de Açúcar é a atração, ela é grande demais para “estacionar”. Isso faz com que o tempo de embarque e desembarque seja maior. Com isso a viagem na nova barca deve ser menor do que 25 minutos. Olhando para o contexto da região metropolitana, onde o tempo médio de deslocamento está próximo do dobro disso, não chega a ser um grande problema. O mais grave dos relatos sobre a barca é que ela tem ficado mais tempo atracada na Estação Araribóia em Niterói do que em circulação e isso acontece em função a incapacidade da infraestrutura existente. Ou seja, conclui-se que há um aí evidente problema de planejamento por parte do governo e da empresa (CCR-Barcas) que não foi capaz de prever a necessidade de adaptação. É o dinheiro público escorrendo como o esgoto que cai na Baía de Guanabara.

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