Velozes e furiosos: os rachas, a sociedade motorizada e a permissividade do poder público

uolracha

Embora não deixe de ser um absurdo, não há grandes novidades na notícia veiculada pelo website do Jornal O Globo sobre os jovens que promovem rachas com carrões na Av. das Américas, que inclui o direito de controlar o tráfego de outros veículos enquanto se divertem (Aqui a reportagem de Alessandro Lo-Bianco: http://oglobo.globo.com/rio/jovens-promovem-pegas-na-barra-cinco-vezes-por-semana-sempre-partir-das-23h-13417176).

Na realidade, esse “esporte” predileto dos pitibóis da Barra da Tijuca é uma prática disseminada por todo Brasil. Tanto em cidades pequenas como em grandes metrópoles são muito mais comuns do que são noticiadas. Basta uma busca no Google para ver como os apaixonados pelo rachas estão espalhados pelo país.

Tal prática não é motivada somente pela busca por adrenalina ou pelo “culto à velocidade”, embora esse seja um motivo forte e típico de uma sociedade exageradamente motorizada como a nossa. Também é resultado da visão muito predominante de que o usuário de automóvel tem mais direito do que os cidadãos desmotorizados. Esse mesmo pensamento está por trás da maioria das políticas de trânsito nas cidades que sempre priorizam a circulação de carros e motos nas ruas.

Como isso não basta, essa mesma visão faz com que alguns donos de automóveis se achem mais donos das ruas do que os outros motoristas. Esse parece ser o caso dos garotos de academia, filhos de bicheiro e até atores (como os identificou uma moradora da Barra em relato ao O Globo) que praticam o tal racha a 280km/h. O relato na matéria diz que um dos participantes, usando uma bandeira vermelha, controla a entrada e a saída de outros carros dos condomínios que ficam na via onde acontece a “competição”.

Outro principal motivo para que aconteçam com tanta frequência é a permissividade do poder público, que, por diversas vezes, vem mostrando que sequer fiscaliza o básico.

Obviamente, esses motoristas metidos a piloto não ameaçam apenas o sossego local, mas também a vida e a integridade física de quem circula e mora nas proximidades. E não é esse tipo de “fiscal de pista” com a bandeirinha vermelha na mão que vai evitar um acidente.

No caso do Rio, a prefeitura já não faz o dever de casa há muito tempo. Apesar do explosivo crescimento no número de automóveis e motos e do aumento na frota de ônibus, de táxis e vans, o número de fiscais da Secretaria de Transportes diminuiu. As falhas que permitem esses rachas escrotos também não são novidade. O mesmo jornal o Globo noticiou, há um tempo atrás, que apenas 40 pessoas são responsáveis por fiscalizar uma frota de 33 mil táxis, aproximadamente 9 mil ônibus e seis mil vans na cidade.

Como o Rio de Janeiro não vive só das maravilhas, mas também dos absurdos, a Polícia Militar, que poderia coibir os rachas (ou “pegas” como preferem alguns) já foi protagonista de notícia parecida. No dia 30 de março de 2013 o site G1-Rio mostrou um PM flagrado dando dicas de como fazer os rachas, enquanto seu parceiro observava (Aqui a reportagem com o vídeo: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/03/pm-flagrado-dando-aula-de-pega-na-barra-no-rio-pode-ser-expulso.html). “Cansei de acionar por telefones e e-mails os órgãos municipais e estaduais e a gente não consegue obter retorno. Eu chego a ver numa pista a polícia e no outro lado o carro do pega”, disse um morador. A matéria diz ainda que os dois policiais envolvidos responderiam ao Conselho de Disciplina e poderão ser expulsos, o que é bem provável que não aconteceu.

Como nem tudo está perdido, entrou em vigor, recentemente, uma lei (12.971/14), que mexeu em uma série de artigos do Código de Trânsito Brasileiro, e que prevê punições mais severas para causadores de acidentes em racha. Mas sua eficácia, claro, vai depender o nível de fiscalização.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: