Colapso da mobilidade urbana… Imagina na Jornada Mundial da Juventude?!

A Jornada Mundial da Juventude (JMJ/2013), ocorrida entre os dias 23 e 28 de julho, contou com a presença do Papa, reuniu milhares de pessoas e, como foi amplamente exposto na mídia, mudou completamente a rotina da cidade do Rio de Janeiro.  No site oficial do evento, os organizadores recomendavam previamente: “a participação na Jornada requer um corpo preparado para a peregrinação e um coração aberto para as maravilhas que Deus tem reservado para cada um”. A maioria dos participantes demonstrou que de fato estava preparada para os muitos quilômetros de peregrinação.  Eles não contavam, porém, que ao ler “corpo preparado” teriam que levar a recomendação tão ao pé da letra. Mais ainda, que a parte mais exigida do seu corpo seriam as pernas. Tudo isso porque a primeira surpresa não veio exatamente de Deus, mas do poder público. De quem, aliás, não se pode esperar muitas maravilhas, principalmente pelo que tem sido reservado para a população em termos de serviços de transporte urbano, como se viu no caos instalado no sistema de mobilidade urbana durante o evento.

Todos, inclusive a população da cidade, acreditavam com toda fé – já que nenhum alerta foi emitido anteriormente – que o Rio de Janeiro se encontrasse em perfeita condições para garantir a circulação dos visitantes. Não só quando estivessem em busca da programação oficial do evento ou de todos os outros atrativos que a cidade tem a oferecer. No entanto, o que ocorreu foi exatamente o contrário. A situação ficou muito mais próxima da realidade cotidiana de quem usa o sistema de transporte da cidade do que das expectativas criadas pelos desavisados que vieram com o corpo preparado e o coração aberto. Do engarrafamento, por exemplo, nem o principal convidado escapou.  Papa Francisco, enquanto tentava chega ao centro da cidade, ficou preso por alguns minutos em um congestionamento, o que gerou tensão entre os seguranças e um jogo de empurra-empurra entre Secretaria Municipal de Transportes e Polícia Federal, que não queriam assumir a responsabilidade pelo erro.

Constrangimento com o engarrafamento do Papa à parte, nada foi mais grave do que o caos instalado com a paralisação do serviço de metrô das linhas 1 e 2 (as únicas existente) na terça-feira (23/07). Já era esperado que a JMJ2013 fosse um evento de extrema complexidade, mais do que a Copa e as Olimpíadas, como declarou o próprio prefeito da cidade. Sabia-se também que chegaria um número muito grande de participantes, quase imprevisível; “imponderável” nas palavras do prefeito Eduardo Paes. Mas, apesar da certa dose de imprevisibilidade dos impactos da jornada sobre a rotina da cidade – e mesmo que um ou outro imprevisto pudesse acontecer – falhas como essa não podem ser consideradas de maneira alguma como obras do acaso. Na verdade tais problemas, que são comuns também nos trens e nas barcas, não deveriam acontecer com a frequência que acontecem na cidade.

O caos instalado durante a JMJ2013, que prejudicou o deslocamento de cariocas e peregrinos, é apenas mais uma confirmação de que há muito tempo essas panes nos meios de transporte deixaram de ser exceção e passarão a ser a regra. Mais ainda: quase nada tem sido feito de fato para que essa realidade se altere.  A via-crúcis diária dos moradores do Rio de Janeiro já é um sinal de que os problemas que ocorreram no sistema de mobilidade urbana durante a semana da jornada não são culpa somente da sobrecarga de passageiros. Em outras palavras, as panes no metrô e a evidente insuficiência dos sistemas de ônibus não são efeitos exclusivos da JMJ2013. As notícias diárias sobre paradas, acidentes e lotação presente em todos os jornais cariocas confirmam o resultado de décadas de abandono do transporte público de massa e de um modelo de cidade que privilegia os interesses empresariais em detrimento do bem-estar coletivo.

O sistema de mobilidade, cujas estruturas e meios de circulação já não são suficientes, com graves problemas de monitoramento, eficiência e segurança, há anos não atende as demandas de uma metrópole de 12 milhões de habitantes, esta situação apenas ficou mais evidente durante a JMJ2013. Nessa metrópole, segundo dados do Censo 2010, aproximadamente 3,8 milhões se deslocam diariamente no trajeto casa-trabalho, mais de 1,1 milhão, ou 28,5%, a viagem dura mais de 1 hora. A situação da mobilidade urbana na cidade ainda apresenta uma face mais dramática. Os acidentes envolvendo os veículos do transporte coletivo vêm se repetindo e no primeiro semestre de 2013 assumiram níveis trágicos, cujo principal exemplo foi o caso do ônibus que despencou de um viaduto, matando 8 pessoas.

No contexto dos preparativos da Copa e dos Jogos Olímpicos, tem sido prometido pelas autoridades e amplamente difundo pelos meios de comunicação uma “Revolução nos Transportes” na cidade do Rio de Janeiro. No entanto, das obras previstas, apenas a Transoeste foi inaugurada. Esta intervenção, por sua vez, nenhum impacto provocou em outras regiões da cidade se não em uma área específica da Zona Oeste. Além disso, parece ter se saturado em pouco tempo, pois, além de veículos insuportavelmente lotados durante a hora do rush, a própria infraestrutura parece ter se degradado em pouquíssimos meses, como mostrou uma séria de reportagens do Jornal o Globo (“Apenas seis meses após inauguração, BRT Transoeste já apresenta sinais de fadiga”: http://oglobo.globo.com/rio/apenas-seis-meses-apos-inauguracao-brt-transoeste-ja-apresenta-sinais-de-fadiga-7127550#ixzz2aeZjYzgG).

Essas intervenções, com estratégias territoriais equivocadas, parecem atender muito mais a interesses econômicos, sobretudo do mercado imobiliário e do setor de obras públicas do que as reais necessidades de deslocamento da população. Opções questionáveis, como a construção da extensão da linha 1 do metrô (cinicamente chamada de linha 4-sul) é uma delas. A insistência no transporte sobre rodas é outro. No conjunto de intervenções para a implantação do BRT Transoeste, por exemplo, para cada pista construída para a circulação dos ônibus, se construiu cinco pistas de rolamento para carros. Ou seja, um claro incentivo ao uso do automóvel individual em uma cidade que viu o número desse tipo de veículo aumentar em 63% na última década.

Os episódios verificados durante a JMJ2013 são importantes sinais de que a cidade não está preparada para os chamados megaeventos, apesar do volume astronômico de recurso econômicos envolvidos. Mais do que isso, colocam em cheque a capacidade dos gestores em oferecer soluções para a grave crise da mobilidade instalada na metrópole apenas através das atuais estratégias territoriais das intervenções para a Copa e as Olimpíadas, sobretudo,quando olhamos para as necessidades da metrópole e para a realidade dos 20 municípios, dos 12 milhões de habitantes e das pessoas que se deslocam diariamente por longas distâncias.

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