O saber e a ponte são para poucos

Se tudo, milagrosamente, tiver saído conforme o script, foi inaugurada na última sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012, a ponte que liga o campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Cidade Universitária da Ilha do Fundão, à Linha Vermelha (sentido centro). Propagandeada como novo cartão postal do Rio, a ponte custou R$ 62 milhões1 provenientes de medida compensatória da Petrobras, devido ao derramamento de óleo na Baía de Guanabara em 2000, como informa o site da UFRJ.

O mesmo site informa que a nova construção – chamada de Ponte do Saber – tem 21 estais (cabos), 780 metros de comprimento, 180 metros de vão livre e foi projetada pelo arquiteto de grife Alexandre Chan. A matéria de Sidney Coutinho, da Prefeitura Universitária, publicada no site oficial da universidade, diz ainda que, “antes de os cariocas caírem na folia, o governador Sérgio Cabral entrega um presente para a UFRJ”.

A comunidade acadêmica (na qual me incluo) agradece, mas é preciso deixar claro que não se trata de um presente do governador, nem, muito menos, da Petrobras. Primeiramente, nenhuma obra ou política pública, custeadas com nossos impostos, deve ser tratada como tal. Tratá-las como presente é clientelismo puro. Em segundo lugar, e mais importante, a obra da ponte foi custeada pelo dinheiro da sociedade, visto que se tratava de uma dívida da Petrobras com a população do Rio de Janeiro.

Por sua vez, o Governo do Estado, através de seu perfil no twitter, informa também que a construção da ponte é um dos encargos do Governo para as Olimpíadas de 2016 (https://twitter.com/#!/GovRJ/status/170492021411299328). Segundo, ainda, declaração do governador Sérgio Cabral publicada no site do governo do estado “esta obra vai permitir uma evolução muito grande para a cidade. É uma ponte que liga uma ilha do Saber, a Ilha do Fundão, que tem vários laboratórios instalados, muitos renomados cientistas, milhares de trabalhadores e estudantes, enfim, uma comunidade inteira que terá facilitada a saída para a cidade, que às vezes demorava até duas horas e, agora, será feita em poucos minutos”.

No contexto da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, Governo do Estado e Prefeitura Municipal prometem “Revolução nos Transportes” com a construção das linhas de BRT’s, a implantação dos BRS’s e o incentivo ao uso da bicicleta. Por mais que sejam questionáveis, essas intervenções incluem a implantação de sistemas de transporte coletivo e não privilegiam o automóvel individual.

No caso da Ponte do Saber, há, porém, falta de informações e equívocos nos anúncios otimistas sobre sua real capacidade de aliviar o complicado trânsito da região nas horas do rush. Pois pasmem: há fortes indícios de que o trânsito nesta nova ligação entre “ilha e continente”, entre “universidade e cidade”, excluirá o transporte coletivo, que é, por sua vez, o único meio de transporte de milhares de trabalhadores, estudantes e até renomados cientistas – para usar as palavras do governador – que optam pelo transporte coletivo. A não ser que haja uma explicação técnica consistente, contrariando o otimismo das matérias publicadas na imprensa oficial, e da fala do governador, estaremos, não diante de um cartão postal, mas sim de uma aberração urbana gerada por UFRJ, Governo do Estado, Prefeitura Municipal e Petrobras, pois não será a comunidade inteira atendida, mas somente aqueles que usam (ou passarão a usar) o automóvel individual para acessar a universidade. Quem usa o ônibus pra sair da UFRJ continuará utilizando o trajeto antigo.

A ponte já está em funcionamento, mas ainda é cedo para avaliar o impacto de sua construção sobre o fluxo de veículos que saem diariamente da Ilha do Fundão, pois o ano letivo ainda não começou. O que podemos afirmar com absoluta certeza é que a prometida “Revolução nos Transportes” não se faz com automóvel individual. A demanda do Fundão, há muito tempo, é por transporte de massa. Na Ponte do Saber os carros serão privilegiados e o seu uso mais uma vez estimulado justamente na (e pela) universidade que deveria atuar na vanguarda da inovação e da democracia. O automóvel individual, que domina completamente os espaços públicos, agora domina também a universidade, que, contrariando o Saber, inaugura algo que já nasce velho.

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